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Livros | Objetos Cortantes, de Gillian Flynn



Vocês já ouviram que algumas coisas nas mídias são feitas apenas para chocar? Que elas não tem um motivo narrativo ou se quer uma moral para contar no final?

Essa é exatamente a sensação que se tem ao ler Objetos Cortantes de Gillian Flynn.

Sinopse: Recém-saída de um hospital psiquiátrico, onde foi internada para tratar a tendência à automutilação que deixou seu corpo todo marcado, a repórter de um jornal sem prestígio em Chicago, Camille Preaker, tem um novo desafio pela frente. Frank Curry, o editor-chefe da publicação, pede que ela retorne à cidade onde nasceu para cobrir o caso de uma menina assassinada e outra misteriosamente desaparecida.

Desde que deixou a pequena Wind Gap, no Missouri, oito anos antes, Camille quase não falou com a mãe neurótica, o padrasto e a meia-irmã, praticamente uma desconhecida. Mas, sem recursos para se hospedar na cidade, é obrigada a ficar na casa da família e lidar com todas as reminiscências de seu passado. Entrevistando velhos conhecidos e recém-chegados a fim de aprofundar as investigações e elaborar sua matéria, a jornalista relembra a infância e a adolescência conturbadas e aos poucos desvenda os segredos de sua família, quase tão macabros quanto as cicatrizes sob suas roupas.

Admito que tinha muita expectativa quando peguei esse livro para ler. Eu tinha acabado de assistir Garota Exemplar (que rapidamente se tornou o meu filme favorito), e a autora estava sendo muito bem falada nas mídias sociais. Li algumas resenhas de livros dela, e todas eram bem positivas. Minha escolha por Objetos Cortantes ser o primeiro livro que leria de Gillian Flynn foi inteiramente baseado no título impactante e na breve sinopse que eu li: acreditei profundamente que seria um thriller policial e intimista que me faria ler tudo em dois dias.

Levei três meses.

A narrativa não é ruim. A construção de mundo é intuitiva, e realmente faz com que você se identifique (se já passou com isso) com as minúcias de uma vida no interior. É uma narrativa cru, visceral, que descreve as doenças psicológicas, a auto-mutilação, os vícios e os impulsos de forma quase chocante. É um livro sem rodeios: as descrições das coisas mais nefastas estão lá, nos mínimos detalhes, bem claras e bem óbvias as nossos olhos. Situações bizarras que talvez sejam banalizadas na nossa sociedade são jogadas nas nossas caras e nos faz duvidar da nossa própria sanidade, mesmo como mero leitor. A partir daqui, espere uma pitadinha de spoiler sobre a construção dos personagens.

O caso da sexualização precoce da irmã mais nova de Camille, Amma, talvez seja um dos pontos mais doentio da trama. A construção entre a dualidade de sua inocência, e ao mesmo tempo de seus esforços para parecer mais velha, mais sensual. É constrangedor ler algumas passagens do livro onde ela se esforça para seduzir homens muito mais velhos que ela. E ao mesmo tempo, assustador como ela consegue fingir para seus pais que é uma menina meiga e doce.

A clara ansiedade doentia de sua mãe também é um ponto focal. Sua mania de arrancar os próprios cilhos, sua clara Síndrome de Münchausen por Procuração, que a faz envenenar suas próprias filhas. E como todas as suas questões são escondidas e protegidas pelo dinheiro e o status que ela tem na pequena cidade. 

O padrasto, por outro lado, é o personagem que expressa visivelmente a depressão, por meio da indiferença ao que está acontecendo ao seu redor. Ele flutua sobre todo esse drama sem nem perceber muito bem o que está acontecendo, indo além de uma pequena indiferença pelos dramas de sua família, e sendo visivelmente indiferente à vida per se.


E são esses personagens e suas questões, doenças e vícios que não fazem que o livro seja um total fracasso. Os crimes descritos são interessantes, os troféus do assassino, e até a resolução do caso em si é satisfatória, porém é pálida em comparação com a construção dos personagens em si. O único problema nisso tudo é um exagero destes, que acabam por ser quase uma caricatura de si mesmos lá pelo meio do livro, e não trazem mais nenhum sentimento de empatia por parte do leitor.



Vale a pena ler? É relativo. Se você, como eu, tem uma tendência a gostar de obras sobre questões psicológicas e descrições explícitas, talvez sim. Mas não é um livro para quem procura um simples romance policial.




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